quarta-feira, 11 de junho de 2014

A GRANDEZA E A VONTADE



Fiz 50 anos em Março  e, por coincidência, recebi como presente, o futuro!  

No dia do pai, abriu-se a porta da minha casa nova, aquela que, nem em sonhos, teria conseguido inventar. 
O que tem este meu novo lar de tão fabuloso? Tudo! Imagine-se que é tão grande, que só se completa, ao ser habitada por muitas famílias. País e filhos juntos, para que nem a vida os possa separar. Imagine-se também que, ao entrar nesta casa, todos os meus medos acumulados ao longo dos anos, desapareceram.
Tenho paralisia cerebral, sou deficiente profunda, completamente dependente da ajuda de terceiros. Até há pouco tempo, os meus país foram os meus únicos cuidadores. Fizeram-no com toda a abnegação. Mas neste desvelo, havia a aflição de não saberem o que me aconteceria quando eles me faltassem. Surgiu então uma pequeníssima luz ao fundo do túnel, mas tão ténue, que parecia miragem. Infelizmente os meus país não tiverem oportunidade de descobrir que, mais forte do que a utopia dos deuses, é a vontade dos homens.
O Lar Integrado Dr. José Mendes de Barros, da APCC, nasceu dessa vontade. Surgiu da premência de dar resposta às famílias que, como a minha, não encontravam nenhuma tábua de salvação. O destino dos seus filhos ficava muito à mercê da incerteza, do medo e da angústia.
Agora, mais do que um suspiro de alívio, existe o poder viver ao máximo o dia de hoje, esperando com entusiasmo todos os dias que hão de vir.
Está Obra tem a amplitude de um horizonte infinito. Em cada pôr-do-sol, acontece uma apoteose mágica, na qual se fortalece os laços das famílias que ainda têm a felicidade de permanecerem unidas, e daquelas que já fizeram uma aliança com a Eternidade.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

O DESABAFO

E agora meninos? Cresceram e a escola chegou ao fim. A inclusão até que foi boa, sobretudo nos primeiros anos, quando os outros meninos ainda sabiam que o mundo é um lugar para todos. Depois do 9.º  anos as coisas complicaram-se e os corredores da escola foram ficando mais estreitos. Tão apertados de gozos, de insultos e de acusações que quase nem vos deixavam passar. Sei que custou, que estavam ansiosos para acabar os estudos e livrarem-se desses colegas malvados. Já não havia paciência nem alma para tantos pontapés. Sei que passaram por todas as humilhações calados e em segredo. Fazer queixinhas só serviria para piorar a situação.
Mas e agora? Os matulões espalham-se por toda a parte, estão nos cursos profissionais, nas universidades, nas filas do primeiro emprego. Existem os vossos direitos, sim, mas quando a vida é a doer, os legisladores lavam as mãos, e os técnicos que sempre vos apoiaram, não têm tempo para adultos, pois já têm na calha outros meninos tão especiais quantos vós já o foram.

Agora? Talvez uma CERCI, por exemplo...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SOBRE A INUTILIDADE

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

BARBIE CADEIRA DE RODAS, MAS QUE BRINCADEIRA É ESTA?


De todas as iniciativas que conheço para sensibilizar sobre a deficiência, esta é uma das mais abjecta, tola e sem sentido.

Daqui há nada ainda existirá alminhas que, mesmo não precisando, vão comprar cadeiras de rodas só porque é fashion...

Há coisas que não desejo ao meu pior inimigo. Muito menos à estúpida duma barbie.

domingo, 13 de novembro de 2011

COISA SIMPLES

Não é fácil, querem-nos heróis a viva força. Ufa, não estou para isso... E se querem saber, fico mal em todas as fotografias.
Não tenho nenhum exemplo extraordinário para dar. Ou talvez, nos dias que correm, a minha vulgar humanidade seja um bom exemplo.
Confesso-me inútil.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

DIREITOS E DEVERES


Não vou por ai, as rampas não me convencem. Penso que nem todos os lugares têm de ter necessariamente acessos. É descabido, por exemplo, que a traça antiga de um qualquer castelo seja alterada pela colocação de estruturas e adaptações que, muito ou pouco, acabam sempre por destoar. As pessoas em cadeira de rodas só ficam condicionadas quando perdem a noção dos limites. Esta minha opinião com toda a certeza não é consensual, no entanto cheguei a uma altura em que me preocupo bastante mais com as minhas obrigações do que com os meus direitos. E isto porque o que vejo é um desfilar de reivindicações. Sinceramente, já não há pachorra. Não vou por aí, prefiro encarar os obstáculos como saborosos desafios que a vida me dá. Só assim consigo ir além dos meus limites.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

POEMA PARA ALIVIAR O SOL DA CAB­EÇA

o que escrevo são poemas para limpar os ouvidos
convém, no entanto, fornecer um manual de instruções

que seja suficientemente prático e explícito


para começar, é preciso dizer que

já tive um tempo em que descascava ervilhas

e brincava com os dedos na água de sabão

também sabia andar sentada de marcha atrás

para limpar com uma vassoura o chão


mas isso são caligrafias sem nenhuma importância

e o que interessa salientar é que não sei fazer nada

além de dar murros nas letras

porque tenho vontade de partir as janelas do mundo

para poder respirar mais à vontade


isto também não é exacto pois sou uma das poucas pessoas

que posso respirar à larga sem provocar danos ambientais


há poucas coisas no mundo

que considero de suprema importância

embora não haja um único grão de poeira

que me seja totalmente indiferente


pelo contrário, todas as coisas do mundo me chamam à atenção

sobretudo o globo terrestre que está à janela da minha vizinha

e que é pequenino e feito de madeira com caruncho


para que os meus poemas possam limpar os ouvidos

é necessário seguir algumas regras:


evitar todas as palavras que sejam de enfeitar

(incluindo a palavra palavra),

não ter objectos cortantes nem cantantes,

saber que tudo muda

ao sabor dos picante do ventos


não conheço quase ninguém

mas agradeço a todas as pessoas em geral

e à humanidade em particular

por nunca me terem apanhado em flagrante delírio


a verdade é que sempre fui bem comportada
apenas cometo deslizes gramaticais
e pouco mais


dizem que dantes havia rios com mulheres bordadas,

e que os lençóis e as toalhas brancas

navegavam pela corrente das águas até chegarem ao mar


os meus poemas só existem

porque não posso andar a passear de guarda-chuva